Mestrado

“Seja como for” e “sea como fuere“: marcadores discursivos?
uma análise do uso dessas expressões em artigos de opinião brasileiros e argentinos

RESUMO

Quando um falante quer construir um discurso em um tempo e em um espaço determinados, deve realizar um processo de elaboração prévia no qual os conceitos mentais que quer comunicar devem ser convertidos em signos linguísticos; entre essas unidades linguísticas se estabelecem relações sintáticas, semânticas e pragmáticas que configuram a base dos enunciados, unidades intencionais de comunicação, representados ou não por orações. Estes enunciados se concatenam para formar unidades superiores – intervenções, intercâmbios e sequências – até configurar o discurso completo.

Essa visão discursiva da língua é uma das teorias que vem sido desenvolvida desde que as primeiras publicações distinguiram texto de sucessão de orações. A partir dessa visão, proliferam-se estudos que tentam determinar as estruturas e organização do discurso, assim como as teorias semânticas e pragmáticas que intervêm em sua construção.

Dentre as correntes que se ocupam disso destaca-se a Linguística Textual (LT). Adam (2008) o confirma quando explica que a LT tem como papel teorizar e descrever os encadeamentos de enunciados elementares no âmbito da unidade de grande complexidade que constitui um texto e tem como tarefa detalhar as ‘relações de interdependência’ que fazem de um texto uma ‘rede de determinações’. Logo, a LT concerne tanto à descrição e à definição das diferentes unidades como às operações, em todos os níveis de complexidade, que são realizadas sobre os enunciados (ADAM, 2008, p. 63).

Uma das operações de textualização que ultimamente tem chamado a atenção de diversos estudiosos, inclusive a nossa para a realização do presente trabalho, é a conexão, que consiste na construção de unidades semânticas e de processos de continuidade pelos quais se reconhece um segmento textual (ADAM, 2008, p. 63-64).

A pesquisa que realizamos tem origem numa observação, inicialmente simples, de expressões fixas por vezes usadas em contextos que parecem conectar segmentos discursivos, mas que não figuram nas gramáticas tradicionais, como o nosso “objeto de estudo” seja como for. Essa expressão, em uma análise superficial, nos chamou a atenção pelo fato de normalmente estar presente entre vírgulas (ou encabeçando um parágrafo e seguida de vírgula), ser constituída por um verbo que, aparentemente, não constitui uma oração e por, nem sempre, indicar claramente o modo ao qual o pronome como faz referência, como se pode ver no seguinte artigo de opinião da Folha de São Paulo do dia 15 de outubro de 2008:

Nelson Rodrigues dizia que, se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém. Donde não é boa política que, numa campanha eleitoral, um candidato se sente em cima do próprio rabo e fale do rabo alheio.

O que vai dito acima não se refere à estratégia da candidatura de Marta Suplicy para desmerecer a de Gilberto Kassab pela Prefeitura de São Paulo, perguntando se ele é casado e tem filhos -mas a algo ainda mais imoral que está acontecendo no Rio: a distribuição de panfletos apócrifos e ofensivos ao candidato do PV à prefeitura carioca, Fernando Gabeira, acusando-o de homossexual, drogado e ateu.

É chocante que, nas duas maiores cidades brasileiras, no século 21, partidos que se pretendem modernos ressuscitem práticas que ficariam melhor em eleições nos cafundós e grotas da República Velha. No caso de São Paulo, é de se perguntar se os milhares de eleitores petistas também solteiros e sem filhos não se sentirão respingados pela malícia abjeta da pergunta que seu partido pôs no ar.

Como moro no Rio, não tive o desprazer de ouvir a gravação, mas, pelo que me contaram, pode-se perceber a lascívia escorrendo pela boca encharcada do locutor, misturada com o veneno. Seja como for, essa peça de campanha faz parte da propaganda oficial do PT. Sabe-se quem a criou e quem a autorizou.

No Rio, os panfletos são anônimos, embora sua assinatura esteja apenas oculta por elipse. Devem ser da mesma autoria de quem inoculou propaganda política a favor do candidato Eduardo Paes nos telões do Maracanã (que pertence ao Estado), no domingo último, ou de quem requisitou ao Secretário Estadual de Segurança a ficha policial de um militante de Gabeira. A carruagem ameaça reverter a abóbora antes da meia-noite.

A vontade de pesquisar essa expressão crescia a cada texto lido em que aparecia, a cada vez que era pronunciada por algum professor, vizinho, amigo ou parente. No entanto, a certeza de tomá-la como foco nos estudos da pós-graduação veio quando me deparei com a expressão espanhola sea como fuere, de morfologia semelhante e, à primeira vista, também nos níveis sintático, semântico e pragmático, mas com um agravante deliciosamente peculiar: o Futuro do Subjuntivo, nessa língua, é um tempo verbal já em desuso, o que nos inculcou ainda mais “unas ganas” de pesquisar a expressão. E, após um primeiro contato com algumas das obras de Corinne Rossari, como Les opérations de reformulation: analyse du processus et des marques dans une perspective contrastive français-italien, na qual é desenvolvida uma análise contrastiva dos conectores reformulativos do francês e do italiano, amadurecemos a ideia de realmente aprofundar a análise da expressão portuguesa seja como for também sob o enfoque contrastivo

Observados esses fatos, decidimos transformar essas dúvidas iniciais e essas observações um pouco informais em uma dissertação de mestrado que tivesse como objetivo principal responder à seguinte pergunta: são, de fato, conectores as expressões seja como for e sea como fuere?

Começamos a trabalhar com a hipótese de que sim, são exemplos de conectores, embora nem todos os pesquisadores do texto e do discurso deem o mesmo nome tanto à conexão de unidades semânticas como aos elementos envolvidos na conexão. Isso, no entanto, não nos parece um impedimento, já que estudiosos analisaram expressões que outrora não eram consideradas como unidades linguísticas que condicionam o processamento do discurso, como por exemplo, “só que” (LONGHIN, 2003) e “sendo que” (FRANCO, 2006).

Apesar de seguir caminhos diferentes dos seguidos por Longhin (2003) e Franco (2006), propomo-nos a pesquisar em que medida a expressão portuguesa seja como for e a espanhola sea como fuere significam uma relação que se estabelece entre unidades linguísticas e contextuais e que impacto interpretativo elas causam em artigos de opinião. A escolha desse gênero se deve ao fato de que, por sua composição linguística-discursiva, seja mais propenso em apresentar elementos de conexão para evitar interpretações quaisquer por parte dos leitores, já que os conectores, grosso modo, têm a função de assinalar de maneira explícita com que sentido vão encadeando-se os diferentes fragmentos oracionais do texto para, dessa maneira, ajudar o receptor do texto guiando-o no processo de interpretação (MONTOLÍO, 2001).

Para tanto, precisamos de uma teoria consistente sobre conexão discursiva que nos ajude a compreender esse fenômeno. Portanto, inicialmente, traçamos um breve histórico dos estudos desses elementos conectivos e também um resumo metodológico baseado em teorias do campo da Pragmática que desenvolveram estudos sobre marcadores discursivos e conectores. Nossa finalidade nesse momento não era apenas o de definir um conceito de conector a ser empregado para a análise – mesmo porque não existe um consenso terminológico, como os citados conector e marcador discursivo – mas também para melhor vislumbrar o fenômeno da conexão.

Em seguida, aplicamos algumas das características sintáticas atribuídas aos elementos conectivos enumeradas no primeiro capítulo a artigos de opinião retirados de dois grandes jornais: Folha de São Paulo e La Nación. Apesar de os conectores não serem definidos por características sintáticas, já que procedem de diferentes classes gramaticais e sua função supera o âmbito estritamente gramatical, os aspectos sintáticos dificilmente podem ser separados de considerações semânticas ou pragmáticas. Na verdade, como afirma Llamas Saíz (2010, p. 205), “em muitos casos observa-se constantemente que a incidência semântica de alguns marcadores tem seu correlato em um comportamento formal específico”. Além disso, nesse momento do trabalho, apresentamos o motivo pelo qual escolhemos para a pesquisa o gênero textual artigo de opinião.

Na sequência, passamos para a verificação da atuação dessas expressões no corpus selecionado tomando como base um rápido teste de sinônimo feito com falantes nativos de português e espanhol. Após isso, analisamos os possíveis impactos de seja como for e sea como fuere na inferência de alguns artigos de opinião.

Os resultados da pesquisa revelaram que as expressões investigadas são marcadores discursivos pertencentes ao conjunto dos reformuladores, mais especificamente ao subgrupo dos reformuladores de distanciamento, já que dão lugar a uma revisão do que foi dito no segmento de referência (segmento reformulado, anterior ao conector), que implica a perda parcial ou total de pertinência do que foi expresso previamente. Além disso, percebemos que essa perda ou supressão do segmento de referência pode acontecer com a finalidade de retomar o tema do texto após alguma exemplificação ou digressão, o que faz com que a reformulação aconteça exatamente suprimindo esse segmento. Também analisamos casos em que é a partir do marcador discursivo que o articulista expõe seu ponto de vista no texto.

Referências:
  • ADAM, Jean-Michel. A linguística textual: introdução à análise textual dos discursos. São Paulo: Cortez Editora, 2008.
  • FRANCO, Giovanni. Relações interoracionais: uma abordagem funcionalista de estruturas iniciadas com sendo que, na língua oral e escrita do Brasil. 2006. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Faculdade de Letras, UFMG, Belo Horizonte, 2006.
  • LLAMAS SAÍZ, Carmen. Los marcadores del discurso y su sintaxis. In.: LOUREDA LAMAS, Óscar & ACÍN VILLA, Esperanza. Los estudios de los marcadores del discurso en español, hoy. Madrid: Arco/Libros S.L., 2010, p. 183-239.
  • LONGHIN, Sanderléia Roberta. A gramaticalização da perífrase conjuncional só que. 2003. Tese (Doutorado em Linguística) – Instituto de Estudos da Linguagem, UNICAMP, Campinas, 2003.
  • MONTOLÍO, Estrella. Conectores de la lengua escrita. Barcelona: Ariel, 2001.


(LEIA AQUI
 A DISSERTAÇÃO)
arquivo com 117 páginas

Para link da chamada da dissertação na Biblioteca Digital da UFMG clique AQUI.

 

TRABALHOS RELACIONADOS

1) MAZZARO, Daniel. “Sea como fuere”: un posible conector. Anais do XIII Congresso Brasileiro de Professores de Espanhol: Integração de Culturas. João Pessoa, 2009. p. 1-11. 

2) MAZZARO, Daniel. La reformulación en español y la expresión ‘sea como fuere’Anais do VI Congresso Brasileiro de Hispanistas. Campo Grande, 2012 [no prelo]

3) MAZZARO, Daniel. “Seja como for” X “No entanto”: Reformulação = Contra-argumentação? – II Coloquio Internacional – Marcadores discursivos en las lenguas románicas: un enfoque contrastivo – Buenos Aires (dezembro de 2011) (Slides da apresentação)